Com possível aprovação do fim da escala 6×1 ainda em 2026, transporte de cargas pode ter custo adicional de R$ 11,9 bi por ano
Em 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou em Plenário a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019) que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, com garantia de dois dias consecutivos de descanso e manutenção dos salários. A matéria agora segue para análise do Senado, com possibilidade de promulgação ainda neste ano. Se trata de um movimento que promete reconfigurar as engrenagens da mobilidade e do abastecimento no país.
Para o setor de transportes, responsável por cerca de 65% da movimentação de cargas no Brasil e pelo deslocamento diário de milhões de passageiros, o impacto será estrutural e imediato. Este artigo analisa, com base em dados concretos, os efeitos sobre custos, produtividade, oferta de mão de obra e a percepção dos trabalhadores.
O texto aprovado estabelece uma redução gradual da jornada semanal, incluindo duas horas a menos nos primeiros 60 dias após a promulgação, e as duas horas restantes após 12 meses. Diante da pressão popular e governista, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), precisou se reposicionar e classificou três pontos como “inegociáveis”: a redução da jornada, o fim da escala 6×1 e a manutenção dos salários.
Entidades patronais tentaram ampliar o período de transição, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) que defendia quatro anos de adaptação, mas a articulação política em ano eleitoral acelerou o cronograma. O clima em Brasília é de aprovação ainda em 2026, segundo a Federação das Empresas de Transporte de Carga do Estado de São Paulo (Fetcesp).
Qualidade de vida X aumento de custos
O transporte rodoviário de cargas é o modal mais sensível à mudança. Atualmente, a legislação permite jornada de até 8 horas diárias e 44 semanais aos motoristas, o que, na prática, mantém o regime de seis dias trabalhados para um de descanso. Com a nova regra, a indústria terá de reorganizar turnos, rotas e contratar mais profissionais. Sobretudo, porque o desrespeito aos períodos de descanso aos caminhoneiros ainda é bastante elevado, complicando a exploração da chamada “mais-valia” (diferença entre o valor gerado pelo trabalho do funcionário e o salário pago a ele).
Com base no relatório técnico da Confederação Nacional do Transporte (CNT), elaborado com a participação do sociólogo José Pastore (USP) e do economista Paulo Rabello de Castro, o impacto financeiro da redução da jornada semanal sobre o setor de transportes foi projetado em dois cenários principais:
Cenário de redução para 40 horas semanais: haveria um aumento médio de 8,66% no custo da mão de obra do setor, o que representaria um custo anual adicional de aproximadamente R$ 11,9 bilhões.
Cenário de redução para 36 horas semanais: o impacto seria significativamente maior, com um acréscimo de 20,53% nos custos trabalhistas, resultando em um custo extra anual de R$ 28,2 bilhões para as empresas de transporte.
Esses valores consideram a manutenção dos salários nominais e a necessidade de contratação de novos trabalhadores para cobrir as horas reduzidas, sem ganhos de produtividade compensatórios no curto prazo. O estudo da CNT é um dos mais citados pelas entidades patronais para alertar sobre os efeitos econômicos da mudança legislativa.
No PIB do setor, a CNT projeta uma queda de 1,3% (cerca de R$ 4,8 bilhões ao ano) no cenário de redução para 40 horas. Especialistas ouvidos pela Fetcesp apontam que o impacto mais severo recairá sobre pequenas transportadoras, onde estruturas enxutas tornam qualquer contratação adicional um peso proporcionalmente maior.
O Outro Lado da Moeda
Estudos mostram que jornadas excessivas ampliam o risco de acidentes e doenças ocupacionais. O juiz Ronaldo Callado, diretor da Associação Nacional das Magistradas e Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), afirma que o excesso de trabalho tem aumentado os índices de adoecimento, absenteísmo e rotatividade, com destaque para burnout, ansiedade e depressão.
Um estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT/Unicamp) aponta que a redução da jornada pode gerar ganhos de produtividade, especialmente quando acompanhada de redistribuição do trabalho e manutenção salarial. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, sustenta que o aumento da produtividade pode compensar os custos adicionais, citando evidências de que empresas que já adotaram o modelo 5×2 tiveram experiências exitosas.
O desafio da escassez de motoristas
O problema mais crítico do setor não é o custo, mas a falta de gente. Levantamento da CNT mostra que 65,1% das transportadoras já relatam dificuldade para contratar motoristas profissionais. A idade média dos caminhoneiros chegou a 46 anos, e 22% já têm mais de 50, indicando uma força de trabalho que envelhece sem reposição adequada.
Se a mudança na jornada ampliar a demanda por motoristas em um mercado já desabastecido, a consequência será inevitável com o aumento do custo do frete, repassado ao consumidor final. Tudo isso em um contexto pouco atrativo, que costuma pagar baixos salários aos caminhoneiros, que tem pouca disposição em formar novos condutores e com fretes muito baixos, eventualmente até abaixo do piso mínimo. Dessa forma, não apenas os negócios devem se reestruturar diante da novidade trabalhista, mas o contexto em que o setor opera.
Transporte de Passageiros
No transporte coletivo urbano, a conta é ainda mais sensível. A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) alerta que a redução da jornada pode elevar os custos com motoristas em até 33% no cenário de 36 horas semanais, e cerca de 15% no cenário de 40 horas. A mão de obra representa atualmente 43,1% dos investimentos totais da operação do transporte público urbano no país.
Uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula que a redução de 44 para 40 horas elevaria o custo da hora trabalhada no transporte terrestre em 8,77%, acima da média nacional de 7,84%. Considerando o peso da mão de obra na estrutura de custos (25,20%), o impacto final seria um aumento de 2,21% nos gastos operacionais totais das empresas.
A NTU alerta que, sem ganhos de produtividade ou subsídios adicionais, a pressão sobre as tarifas será imediata. Mais da metade das empresas operadoras já enfrenta dificuldades para contratar motoristas, e a escassez de mecânicos compromete a manutenção das frotas. Aqui, mais uma vez, a baixa atratividade ao interesse dos trabalhadores já existe antes mesmo da pauta 6×1 e, portanto, a necessidade de reestruturação é de todo o contexto setorial e não apenas de cada negócio.
Interesse público
A adesão popular à redução da jornada é expressiva. Pesquisa Datafolha divulgada em março de 2026 apontou que 71% dos brasileiros defendem o fim da escala 6×1. Entre os que trabalham seis dias ou mais por semana, o apoio alcança 68%.
Para a coordenadora do Centro de Memória Sindical, Carolina Maria Ruy, a redução para a escala 5×2 tende a ser positiva para os trabalhadores do setor de transportes, uma atividade “pesada e desgastante”. Ela defende que a redistribuição do trabalho, com mais contratações e sem redução salarial, seja prevista em lei, e não dependa de decisões voluntárias das empresas, conforme noticiado pelo Estadão.
O economista português Pedro Gomes, professor da Universidade de Londres, analisou 250 casos de redução de jornada por via legislativa no mundo desde 1910. A média de crescimento do PIB nos cinco anos anteriores à reforma foi de 3,2%; após a redução, subiu para 3,9%. “O que historicamente acontece, em todas as reduções do tempo de trabalho, é que há um aumento da produtividade por hora. Existem melhoras na forma como estamos a produzir que compensam em grande medida essa redução do tempo de trabalho”, afirma o acadêmico em entrevista à Agência Brasil.
Desafios e oportunidades
A aprovação do fim da escala 6×1 e da redução da jornada é um divisor de águas para os setores de transporte e logística no Brasil. Os dados apontam para um cenário de aumento de custos entre R$ 11,9 bilhões e R$ 28,2 bilhões anuais, segundo a CNT, e agravamento da escassez de mão de obra qualificada, já sentida por 65% das transportadoras.
Por outro lado, as evidências internacionais e os estudos nacionais indicam que a redução da jornada pode gerar ganhos de produtividade, redução do absenteísmo e melhoria das condições de saúde e segurança dos trabalhadores. O apoio popular à medida é majoritário, ainda que acompanhado de cautela em relação aos impactos econômicos.
O desfecho dessa equação dependerá de um planejamento gradual e setorizado, como defendem a CNT, a NTU e o próprio relator da PEC, deputado Paulo Azi (União-BA): “O desafio é evitar que ganhos imediatos ao trabalhador resultem em efeitos adversos no médio prazo”.
Nos próximos meses, o Senado decidirá o ritmo da transição. Enquanto isso, transportadoras, operadores de ônibus e centrais logísticas já começam a recalcular rotas, turnos e custos sob o olhar atento de uma sociedade que quer mais tempo para viver, mas não pode parar de se mover.
Fonte: Frota&Cia