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Dados de IBGE e Anfavea são divergentes para automóveis.

Ao longo de 2013, os dois principais indicadores nacionais de produção de veículos registram diferenças relevantes nos resultados e, no último trimestre, isso ficou mais evidente. De julho a setembro, a produção de veículos leves da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostra alta de 5,1% em relação a igual período do ano passado, enquanto o dado correspondente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – o segmento veículos automotores dentro da categoria de bens de consumo na Produção Industrial Mensal (PIM-PF) – cai 5,5% na mesma base de comparação.
“Afinal, a indústria automobilística está crescendo 5% no Brasil ou caindo 5%”, questiona Francisco Lopes, sócio da consultoria Macrométrica, que, intrigado com a diferença, levantou a questão e a chamou de “novo enigma do IBGE”. “Se você é um fabricante de autopeças, por exemplo, o dado é importante na decisão de se fazer ou não um investimento”, acrescenta o ex-presidente do Banco Central. As diferenças entre a PIM-PF e os dados da Anfavea vêm sendo observadas desde outubro de 2012 e podem ser atribuídas – pelo menos em parte – à incorporação, pela Anfavea, de duas plantas industriais instaladas no ano passado e que ainda não estão sendo captadas pelas estatísticas do IBGE: a da Toyota, em Sorocaba (SP), inaugurada em agosto do ano passado; e a da Hyundai, em Piracicaba (SP), cuja produção começou cerca de um mês depois. As fábricas têm capacidade produtiva de 70 mil e 150 mil unidades/ano, respectivamente, e operam sem folga.
Embora não divulgue os nomes das companhias, o IBGE confirma que a discrepância se refere à produção de plantas industriais instaladas no ano passado no país e que ainda não estão sendo captadas pelas estatísticas da PIM-PF. A seu favor, o instituto diz que, mesmo sem essas plantas recentemente instaladas, a PIM-PF tem cobertura superior a 90% na produção de automóveis no país e é derivada de um painel de produtos e informantes, ou seja, não é um censo.
Rodrigo Nishida, economista da LCA Consultores, lembra também que ampliações importantes de capacidade em duas fábricas em Goiás talvez ainda não tenham sido incluídas na pesquisa do IBGE. Além disso, observa, há uma diferença importante de metodologia entre as pesquisas. A Anfavea soma as unidades produzidas enquanto a PIM observa o valor de transformação do produto. “A produção de um carro maior, em tese, tem um valor de transformação maior, com peso maior na pesquisa”, diz. Lopes, ao levantar a polêmica, também ponderou que essa diferença na metodologia pudesse explicar a divergência, mas ainda assim considerou estranho o descolamento recente das pesquisas.
Esse seria inclusive outro fator a pesar na agilidade do IBGE: a metodologia que incorpora o valor adicionado do veículo tornaria mais trabalhosa a inclusão de novas informações no universo da pesquisa, tudo isso feito de forma a não atrasar a divulgação da PIM-PF. Rodrigo Baggi, analista do setor automotivo da Tendências, diz que é importante reconhecer que, no longo prazo, os indicadores caminham juntos. “É melhor não se atentar muito a variações em períodos muito curtos, já que o importante é que a tendência de longo prazo é similar”. Para Nishida, a discrepância atrapalha um pouco, mas não é tão relevante. “A Anfavea é um dos indicadores coincidentes mais importantes para projetar o desempenho da indústria, até pelo peso do setor, mas há outros”, diz.
Para Lopes, não parece correto o IBGE ainda não ter incorporado a produção das duas fábricas. “O índice é da produção. Se aumentou a produção com duas novas fábricas o número não poderia ter caído”, afirma. Segundo Lopes, isso não chega a prejudicar outras projeções, mas seria importante que as estatísticas do IBGE revelassem a realidade. “Quando se tem dois conceitos aparentemente iguais, um feito pela associação de classe e outro pelo IBGE, e eles dão sinais tão diferentes, a gente fica perplexo para entender o que aconteceu”, diz. “É o que eu chamei de enigma. Mas esse aí até que está tendo uma explicação”.
Fonte: Valor.

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