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Bloqueio em Ormuz mantém pressão indireta sobre diesel no Brasil; entenda

Para especialista, efeito no país segue ligado ao barril e ao diesel importado; principal ponto de atenção agora é a cadeia de abastecimento interna

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (15), em publicação na rede social Truth Social, que está “abrindo permanentemente o Estreito de Ormuz” e citou a China como uma das interessadas na reabertura da rota marítima.

A declaração foi feita dois dias após o governo Trump iniciar o bloqueio a navios que circulassem pelo Estreito de Ormuz saindo ou chegando a portos iranianos. Também nesta quarta-feira (15), o Comando Central dos Estados Unidos informou que nove embarcações cumpriram ordem das forças americanas para dar meia-volta e retornar a um porto ou a uma área costeira do Irã durante o bloqueio.

Segundo o especialista em combustível do Gasola by nstech, Vitor Sabag, os efeitos sobre o Brasil seguem indiretos, via preço internacional do petróleo e diesel importado. “No curto prazo, o fechamento total do estreito não trouxe impactos diferentes ao Brasil daqueles que já estávamos observando desde o fechamento parcial”, afirmou.

De acordo com ele, o principal canal de transmissão continua sendo o preço internacional do petróleo, com reflexos sobre o diesel importado que chega ao país.

“O país não importa volumes relevantes de petróleo da região, então o efeito é indireto, o que nos atinge é a alta no preço do barril no mercado internacional, que encarece o diesel importado que chega aos nossos portos”, destacou.

O especialista acrescentou que, enquanto o barril permanecer nos níveis atuais, o cenário no Brasil não muda de forma relevante em relação ao que já vinha sendo observado desde o fechamento parcial.

ATENÇÃO ESTÁ NA CADEIA DE ABASTECIMENTO
Para as próximas semanas, Sabag disse que o principal ponto de atenção está na cadeia de abastecimento de diesel no mercado interno. “A postura da Petrobras será determinante”, pontuou.

Segundo ele, se a defasagem persistir, pode haver desincentivo à atuação de importadores privados, o que aumenta a dependência do mercado interno em relação às refinarias nacionais.

“Se a defasagem atual se prolongar, o desincentivo à importação por parte dos agentes privados tende a crescer. E quando os importadores recuam, a oferta de diesel no mercado interno fica mais dependente das refinarias nacionais, que sozinhas operam no limite da demanda”, afirmou.

O especialista ponderou, porém, que esse cenário não é automático, embora mereça monitoramento. “Não é um desfecho dado, mas é um risco real que já mostrou sinais ao longo de março e que merece atenção”, ressaltou.

GOVERNO EXIGE TRANSPARÊNCIA SOBRE REPASSE DE SUBVENÇÕES
No Brasil, o governo federal também anunciou novas exigências para o mercado de combustíveis em meio ao cenário de pressão sobre o diesel. As distribuidoras de combustíveis deverão informar semanalmente a evolução de suas margens brutas de lucro obtidas na revenda aos postos.

Segundo o governo, a medida busca garantir que empresas que comprarem óleo diesel e GLP com as subvenções anunciadas repassem o benefício ao longo da cadeia.

A obrigação inclui o envio semanal dos dados de comercialização realizados desde 22 de fevereiro e valerá enquanto estiver em vigor o Regime Especial de Abastecimento Interno de Combustíveis previsto na MP 1.349/2026.

A regra fará parte do decreto que regulamenta a medida provisória e prevê que os dados sejam encaminhados à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que deverá publicar as informações em seu site. Distribuidoras que não enviarem os dados não poderão comprar o combustível subvencionado.

Segundo o governo, será paga subvenção adicional de R$ 0,80 por litro às refinarias brasileiras que aderirem ao programa. Em conjunto com os estados, haverá ainda outra subvenção adicional de R$ 1,20 por litro para importadores de óleo diesel.

Somada à subvenção de R$ 0,32 por litro já anunciada em 12 de março, a subvenção por litro de óleo diesel chega a R$ 1,12 para o produtor nacional e a R$ 1,52 para o importador de combustíveis.

O governo também informou que importadores de diesel subsidiado com recursos públicos deverão exigir das distribuidoras a comprovação de que o benefício está sendo repassado aos postos de combustíveis.

O mesmo decreto que regulamenta a subvenção do diesel também traz as regras para a subvenção do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP). Segundo o governo, serão destinados R$ 330 milhões para esse subsídio, o equivalente a cerca de R$ 11 por botijão de gás de cozinha de 13 quilos.

Um segundo decreto regulamenta a formalização da adesão dos estados à subvenção conjunta para o diesel importado. Os estados deverão formalizar a entrada no programa até 22 de abril. Durante o anúncio, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda afirmou que a previsão do governo é de adesão unânime até essa data.

ESCALADA REORGANIZA FLUXOS GLOBAIS DE PETRÓLEO
Segundo Vitor Sabag, o estreito já operava, na prática, com forte restrição antes do anúncio formal do bloqueio total, e boa parte do impacto já havia se materializado nos preços.

De acordo com o especialista, a principal mudança com a escalada está na reorganização dos fluxos globais de petróleo, especialmente para países que ainda conseguiam negociar passagem pela região.

“O efeito mais relevante da mudança de patamar é o que acontece com os fluxos: países que antes conseguiam negociar passagem com o Irã, como a China, agora precisarão buscar petróleo em outras origens. Isso reorganiza a demanda global e pressiona as fontes alternativas”, disse.

Sabag também ressaltou que, apesar da expectativa de nova disparada, o mercado não sustentou ao longo da semana os picos registrados após o anúncio do bloqueio total.

“Esperava-se que o fechamento total empurrasse o barril para novos picos, mas não é o que estamos vendo ao longo desta semana”, afirmou. Segundo ele, após a alta inicial, os preços recuaram com a reação do mercado às sinalizações de retomada das negociações entre Estados Unidos e Irã.

“Após uma alta abrupta na segunda-feira, com o Brent ultrapassando novamente os US$ 100, os preços já recuaram e operam em patamares próximos aos de antes do anúncio do bloqueio total, com o mercado reagindo às sinalizações de retomada de negociações entre EUA e Irã”, disse.

Fonte: Mundo Logística

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