Mesmo com queda nos casos, impacto bilionário mantém pressão sobre seguros, rotas e operação das transportadoras
O roubo de cargas no Brasil continua a pesar na logística e no custo do transporte rodoviário, levando transportadoras a mudar rotas, investir em segurança e pagar mais caro por seguros, o que pressiona o frete em todo o País. Em 2025, foram registradas 8.570 ocorrências, com prejuízo direto estimado em R$ 900 milhões, segundo levantamento da NTC&Logística, entidade que representa empresas do setor e monitora o tema há mais de duas décadas.
Apesar da queda de 16,7% em relação ao ano anterior, o impacto permanece elevado. A média foi de 23,5 roubos por dia e, ao considerar custos indiretos — como seguros mais caros, interrupções logísticas e investimentos em segurança —, o prejuízo total ultrapassa R$ 1 bilhão.
O efeito do roubo de cargas vai além das perdas financeiras e já influencia decisões operacionais. Empresas têm evitado regiões críticas, alterado trajetos e restringido horários de circulação para reduzir exposição ao risco, mesmo com aumento de distância e tempo de viagem.
A concentração geográfica ajuda a explicar essa mudança. A Região Sudeste responde por 86,8% das ocorrências, com Rio de Janeiro (3.777 casos) e São Paulo (3.470) concentrando mais de 80% dos registros nacionais . O padrão operacional também é relevante: os ataques ocorrem majoritariamente em áreas urbanas, durante a manhã e no meio da semana, muitas vezes em momentos de parada ou entrega.
Seguros e nova fiscalização
O avanço do roubo ocorre em paralelo a mudanças regulatórias que reforçam o papel dos seguros no transporte rodoviário de cargas. A Agência Nacional de Transportes Terrestres iniciou, em março de 2026, a implementação de um sistema de verificação automática das apólices obrigatórias, integrado ao Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas.
A medida, baseada na Lei nº 14.599/2023, prevê fase de adaptação até junho e entrada definitiva em julho. Com isso, a regularidade de seguros como RCTR-C, RC-DC e RC-V passa a ser verificada de forma automática, o que tende a reduzir irregularidades e aumentar o controle sobre as operações.
As mudanças recentes no frete mínimo reforçam essa lógica de controle. A tabela passou a funcionar não apenas como referência de preço, mas como indicador de conformidade, com exigência de formalização desde a origem da operação.
A obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) em todas as operações e o bloqueio de fretes irregulares ampliam a rastreabilidade e reduzem brechas na contratação. Além disso, o reajuste recente da tabela, acionado pela alta superior a 5% no diesel, elevou o custo de referência do transporte.
Com mais dados disponíveis, o nível de organização da operação passa a influenciar diretamente a percepção de risco e, consequentemente, o custo do seguro.
Pressão estrutural sobre o transporte
Mesmo com a redução no número de ocorrências ao longo dos últimos anos, o roubo de cargas segue como um problema estrutural, com impacto direto sobre custos, planejamento logístico e competitividade do setor.
Na prática, o transporte rodoviário de cargas no Brasil passa a operar sob uma equação mais complexa: rotas mais longas para evitar áreas de risco, seguros mais caros para viabilizar a operação e maior exigência regulatória para manter a conformidade. O resultado é um frete mais pressionado — e uma logística que se adapta não apenas à eficiência, mas também à segurança.
Fonte: Estadão