Os indicadores de roubo de cargas vêm apresentando uma trajetória de queda em São Paulo e também em municípios da região de Campinas. De acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), foram registradas 1.454 ocorrências no Estado entre janeiro e julho de 2026, contra 2.106 no mesmo período do ano anterior, uma redução de 30,9% e o menor número da série histórica para o período.
Apesar da redução, o cenário ainda exige cautela. O roubo de cargas continua gerando prejuízos expressivos ao Transporte Rodoviário de Cargas e obrigando as empresas a manter investimentos elevados em prevenção, rastreamento, monitoramento, seguros, gerenciamento de riscos e outros mecanismos de proteção. No país, as perdas diretas com cargas roubadas permaneceram próximas de R$ 1 bilhão em 2025, segundo levantamento da NTC&Logística.
O contraste entre a queda das ocorrências e a permanência de perdas elevadas mostra que a melhora dos indicadores não significa que o problema esteja superado. Além do valor das mercadorias, uma ocorrência pode provocar interrupções operacionais, atrasos, custos adicionais e impactos sobre motoristas, clientes e toda a cadeia logística.
Na região, o movimento também é positivo. Levantamento elaborado a partir dos dados da SSP-SP mostra que, no primeiro quadrimestre, os roubos de cargas caíram 54,5% na Região do Polo Têxtil, formada por Americana, Hortolândia, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré. Foram cinco ocorrências entre janeiro e abril de 2026, ante 11 no mesmo período de 2025.
Embora o número absoluto seja menor nesse recorte regional, as ocorrências permanecem relevantes em uma área de intensa movimentação industrial, comercial e logística. A região está conectada a importantes corredores rodoviários e concentra empresas e cadeias produtivas que dependem diretamente do transporte para abastecimento, distribuição e exportação.
A própria dinâmica econômica ajuda a dimensionar a importância da segurança logística. Americana, por exemplo, encerrou 2025 como a maior exportadora entre os cinco municípios do Polo Têxtil, com US$ 530,2 milhões em exportações. Em uma região com fluxo constante de mercadorias, a redução dos roubos representa um indicador positivo, mas não elimina a necessidade de proteção permanente das operações.
Para a presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logística da Região de Campinas (SINDICAMP), Rafaela Cozar, os números representam um avanço importante para uma região marcada pela intensa circulação de mercadorias, mas não devem significar uma redução dos cuidados adotados pelas transportadoras.
“Recebemos esses indicadores de forma positiva, principalmente porque estamos falando de uma região com grande movimentação logística. Ao mesmo tempo, sabemos que a segurança precisa continuar fazendo parte do planejamento das empresas. A queda das ocorrências não significa que podemos reduzir a atenção, mas reforça a importância de manter prevenção, tecnologia, gerenciamento de risco e diálogo permanente com os órgãos de segurança”, afirma a executiva.
Para as transportadoras, o impacto do roubo de cargas não está restrito ao valor da mercadoria. A exposição ao risco também envolve investimentos contínuos em seguros, rastreamento, monitoramento, tecnologias de segurança e procedimentos internos. Mesmo diante de indicadores melhores, essas despesas continuam incorporadas à estrutura das operações e dificilmente podem ser reduzidas de forma imediata, já que o risco permanece presente.
A própria experiência do setor mostra que segurança precisa ser tratada como uma política permanente. A redução das ocorrências pode contribuir, no longo prazo, para um ambiente mais previsível, mas a consolidação desse cenário depende da continuidade das ações públicas de inteligência, investigação e policiamento, associadas às medidas preventivas adotadas pelas empresas.
Em âmbito nacional, a dimensão econômica do problema reforça esse cuidado. Apesar da queda dos roubos nos últimos anos, o levantamento da NTC&Logística sobre 2025 estimou perdas diretas superiores a R$ 900 milhões, podendo o impacto total superar R$ 1 bilhão quando considerados outros efeitos relacionados às ocorrências e à proteção das operações.
Nesse cenário, o SINDICAMP atua para aproximar as empresas de informações, tecnologias e práticas capazes de contribuir para a segurança e a eficiência das operações. Entre as iniciativas está o Programa Inovação, Estratégia e Gestão Empresarial, que promove encontros voltados a empresários e profissionais dos segmentos de transporte de cargas e logística, proporcionando troca de experiências, conhecimento de novas práticas e contato com tecnologias aplicadas ao negócio.
A segurança viária, inclusive, já esteve entre os temas trabalhados pelo Programa Inovação em 2026, enquanto outras edições vêm aproximando os participantes de soluções relacionadas à tecnologia, gestão de dados, acompanhamento de frota e eficiência operacional. Em agosto, por exemplo, o encontro reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir como esses recursos podem apoiar decisões mais eficientes nas transportadoras.
Para o SINDICAMP, os números reforçam dois movimentos que precisam avançar juntos: a atuação do poder público no combate ao crime e a manutenção das estratégias privadas de prevenção. Rastreamento, monitoramento, análise de rotas, definição de pontos seguros de parada, protocolos internos e treinamento de motoristas continuam sendo instrumentos importantes para reduzir a exposição das empresas e proteger as pessoas envolvidas nas operações.
“Nosso papel também é criar espaços para que o empresário conheça soluções, compartilhe experiências e tenha acesso a informações que possam ser levadas para dentro da operação. Tecnologia e dados ganharam um peso muito grande na gestão do transporte e também são aliados importantes quando falamos em prevenção e segurança. Queremos que nossos associados estejam cada vez mais preparados para tomar decisões e proteger suas operações”, acrescenta Rafaela.
A redução registrada em 2026, portanto, representa um avanço, mas também reforça a necessidade de continuidade. Para as transportadoras, a expectativa é que a melhora dos indicadores se mantenha ao longo do tempo e seja acompanhada por uma diminuição efetiva dos riscos e dos impactos financeiros associados ao roubo de cargas.
Fonte: Logística Multimodal