Uso do aparelho no volante aumenta em 400% a chance de acidentes de trânsito; Motiva escolheu o tema para a campanha do Maio Amarelo de 2026
O celular se tornou uma ferramenta de trabalho importante para os caminhoneiros, com o uso de aplicativos de frete e plataformas de telemetria. Porém, ao mesmo tempo em que o aparelho trouxe mais conectividade para o transporte rodoviário, ele também se tornou um desafio na segurança viária. Nesse contexto, surge um fenômeno definido como “epidemia da distração”.
Segundo a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), utilizar o celular enquanto dirige provoca a mesma perda de capacidade de atenção causada por 1g/l de álcool no sangue. A entidade ainda alertou que os riscos de se envolver em acidentes de trânsito sobem para 400% quando se olha mensagens de texto.
Em entrevista ao Fantástico, o presidente da Abramet, Antonio Meira, explicou que o uso do celular ao volante pode provocar três tipos de distração. A primeira delas é a manual, quando o motorista tira uma das mãos do volante para utilizar o aparelho e deixa de acionar corretamente os comandos do veículo.
A segunda é a distração visual. Nesse caso, o condutor desvia os olhos da estrada para prestar atenção na tela do celular, deixando de ver possíveis obstáculos na estrada. Já a distração cognitiva acontece quando o motorista perde tempo de reação.
Os números revelam que esse hábito de utilizar o celular no volante está presente nas estradas do Brasil. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que, entre janeiro e fevereiro de 2026, mais de 601,3 mil motoristas brasileiros foram multados por uso do aparelho enquanto dirigiam, de acordo com uma publicação do Portal do Trânsito.
Esse cenário fez com que a epidemia da distração se tornasse um dos temas trabalhados pela Motiva durante a campanha do Maio Amarelo em 2026. Com o slogan “No trânsito, seja só motorista”, a companhia tem realizado atividades educativas em pontos estratégicos das rodovias e em cidades lindeiras.
PARADOXO: CONECTIVIDADE E INSEGURANÇA
O diretor de Operações da Motiva, Jorge Pereira, revelou que a tecnologia deve ser vista como uma aliada, desde que utilizada conscientemente. “O celular é um parceiro para os motoristas, desde que utilizado de forma consciente”, afirmou em entrevista exclusiva para a MundoLogística.
O executivo explicou que o aparelho pode ser utilizado se for fixado corretamente no painel central ou no para-brisa sem atrapalhar a visão do condutor, segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Na opinião dele, o celular pode auxiliar o motorista profissional com os aplicativos de navegação.
No entanto, o cenário muda quando o aparelho começa a competir com a atenção do motorista no trânsito. Para Pereira, atividades como responder mensagens, fazer chamadas ou acompanhar as redes sociais durante a condução podem representar um risco no trânsito. “Vai acontecer um acidente se o condutor estiver utilizando o celular de forma inadequada”, apontou.
O executivo também alertou sobre comportamentos que são frequentemente vistos nas rodovias brasileiras, como motoristas que utilizam o celular para filmar acidentes para compartilhar em grupos de mensagens ou condutores que realizam transmissões ao vivo enquanto estão no volante.
“É muito comum ver influenciadores fazendo lives no volante. […] As pessoas precisam entender que essa não é uma prática normal. É praticamente dirigir de olhos fechados”, disse.
OUTROS RISCOS NAS RODOVIAS
Além da epidemia da distração, Jorge Pereira destacou outros perigos eminentes nas rodovias brasileiras, incluindo aqueles relacionados aos motoristas profissionais. Segundo o executivo, jornadas excessivas, fadiga e uso de substâncias estimulantes ainda podem afetar os caminheiros.
Caminhoneiros autônomos brasileiros trabalham, em média, 14 horas por dia e 25 dias por mês, segundo dados da pesquisa “Realidade do Caminhoneiro Autônomo 2025”, realizada pela Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA). O levantamento também revelou que 7,8% dos entrevistados admitiram utilizar substâncias psicoativas para enfrentar a jornada, sendo o rebite o mais citado (76,4%), seguido pelo cigarro (35,4%).
Nesse sentido, o diretor de Operações destacou a implementação de Pontos de Parada e Descanso (PPDs), que oferecem estrutura para repouso aos motoristas profissionais. Apesar disso, o executivo afirmou que falta conscientização por parte dos condutores sobre a importância das pausas obrigatórias.
MUDANÇA DE CULTURA
Há, porém, esperança. De acordo com Pereira, o uso do celular nesse contexto deve passar por uma mudança de cultura, assim como aconteceu com o cinto de segurança nas últimas décadas, que só se tornou obrigatório no Brasil em 1997 com a entrada em vigor do CTB.
“Lá atrás, praticamente ninguém usava cinto de segurança. Hoje, quando vemos alguém sem o equipamento, tratamos como um absurdo”, afirmou o executivo.
Segundo uma pesquisa da Entrevias Concessionária de Rodovias de 2023, 95% dos condutores usavam o equipamento de segurança. Apesar do uso do cinto ser uma prática recorrente, ainda há um desafio relacionado aos motoristas profissionais: 20% dos motoristas profissionais trafegavam sem utilizar o equipamento.
Dados da Motiva revelam que cerca de 10% dos motoristas que usam as rodovias administradas pela companhia ainda não utilizam o cinto de segurança. Segundo Pereira, o número inclui passageiros e acompanhantes em caminhões.
TECNOLOGIA NA PREVENÇÃO
Mesmo com os malefícios associados ao uso do celular, o executivo da Motiva revelou como tecnologias podem ser utilizadas para a prevenção de acidentes no trânsito. Em algumas concessões, a companhia ampliou a cobertura 4G e 5G, como no caso da parceria com a operadora TIM na Rio-São Paulo.
Na opinião de Pereira, a ampliação da conectividade nas rodovias também auxilia na segurança do usuário ao facilitar o acesso aos canais digitais de atendimento da concessionária. Segundo ele, os chatbots da Motiva agora conseguem identificar com mais precisão a localização dos usuários, agilizando o atendimento em situações de emergência.
“Isso trouxe uma assertividade gigantesca para a gente encontrar o usuário. Às vezes, o motorista estava na rodovia, mas não sabia passar a localização exata. […] Então a tecnologia se tornou super parceira para operação, para segurança e fluidez das rodovias”, acrescentou.
Além disso, o executivo disse que enxerga para o futuro brasileiro o conceito de rodovias conectadas. A ideia é que veículos recebam alertas sobre acidentes, congestionamentos, chuva forte ou obras nos painéis dos veículos. “O futuro da segurança viária passa por veículos conectados entre eles e conectados com a infraestrutura”, ressaltou.
Fonte: Mundo Logística