Governo Federal anunciou recentemente um benefício adicional de R$ 1,40 por litro para o diesel importado, elevando a subvenção total ao combustível para R$ 3,52 por litro
O Governo Federal anunciou, em 9 de outubro, o reforço da subvenção ao diesel importado, com um benefício adicional de R$ 1,40 por litro, elevando o subsídio total para R$ 3,52 por litro. Para o diretor da Anacirema Transportes, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transportes e Cargas de Campinas e Região (SINDICAMP) e diretor da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), José Alberto Panzan, a medida não significa uma redução nos custos das transportadoras.
De acordo com o executivo, é preciso uma distinção para compreender os efeitos da política sobre o setor. “Precisamos separar duas situações. Uma coisa é o diesel ficar mais barato para quem abastece. Outra é o governo subsidiar parte do seu preço para evitar que os aumentos internacionais sejam integralmente repassados ao mercado.”
“Até que tenhamos uma redução efetiva no abastecimento, não podemos afirmar que os custos das transportadoras diminuíram; o que existe é uma tentativa de conter uma pressão que poderia ser ainda maior”, avaliou.
O QUE MUDA COM A SUBVENÇÃO DO DIESEL?
O diesel está entre os principais componentes dos custos do transporte rodoviário de cargas, podendo representar cerca de 35% do custo do frete e alcançar 50% em determinadas operações, conforme referências da NTC&Logística.
Por isso, segundo Panzan, qualquer alteração relevante no combustível afeta diretamente a formação dos preços e a rentabilidade das empresas. Entretanto, a principal preocupação não está apenas no comportamento atual dos preços, mas no que poderá acontecer quando os incentivos forem retirados.
“Reconheço que estamos vivendo um momento de instabilidade internacional e que medidas emergenciais podem ser necessárias. Minha preocupação é com o que vem depois. Se o governo está absorvendo temporariamente parte dessa pressão, precisamos saber como será feita a transição quando a subvenção terminar. Caso o petróleo e o câmbio continuem pressionados, poderemos enfrentar uma elevação expressiva do diesel, com consequências sérias para o transporte rodoviário de cargas”, alertou.
A Medida Provisória nº 1.391/2026 prevê a concessão temporária da subvenção, com possibilidade de prorrogação, alteração ou interrupção, conforme as regras estabelecidas e as condições de mercado. Essa flexibilidade permite ao governo responder a situações emergenciais, mas também exige atenção redobrada das empresas na elaboração de seus orçamentos e contratos.
Na avaliação do executivo, a preocupação deve ir além dos efeitos imediatos da medida. O transporte rodoviário trabalha com contratos de médio e longo prazo, investimentos elevados em veículos e equipamentos, compromissos financeiros e uma estrutura de custos que não acompanha, necessariamente, as oscilações do diesel.
“Quem administra uma transportadora precisa tomar decisões olhando para os próximos meses e anos. Temos contratos a cumprir, funcionários, fornecedores, financiamentos e investimentos que dependem de planejamento”, afirmou.
Para ele, não se pode assumir que uma condição criada por uma subvenção temporária será mantida no futuro, é preciso trabalhar com a realidade dos custos e, principalmente, com os riscos envolvidos.
IMPACTO NAS TARIFAS DE TRANSPORTE
Outro ponto sensível é a possível repercussão da subvenção sobre as tarifas de transporte. Na visão dele, não há fundamento econômico para que a simples existência do benefício seja utilizada como justificativa automática para reduzir os valores dos fretes.
“Se o diesel não ficou efetivamente mais barato para a transportadora, não existe redução de custo a ser repassada”, argumentou. Panzan também defendeu que eventuais reduções no frete considerem a consistência e a duração da queda no preço do diesel, para evitar que as transportadoras tenham dificuldades para recompor as tarifas caso o combustível volte a subir após o fim do benefício.
O executivo ressaltou que essa preocupação não representa uma resistência à revisão dos custos ou à negociação comercial. Pelo contrário, contratos equilibrados e relações transparentes entre transportadoras e embarcadores são fundamentais para a continuidade das operações.
“Os embarcadores também precisam de previsibilidade e competitividade. Uma relação comercial saudável depende de critérios claros, que considerem tanto as reduções quanto os aumentos dos custos. O que precisamos evitar é que uma situação temporária comprometa o equilíbrio econômico de contratos que precisam ser sustentáveis para todos os envolvidos”, observou.
DEBATE SOBRE O DIESEL
Panzan defendeu que o debate sobre o diesel também considere a responsabilidade fiscal, a segurança do abastecimento e a necessidade de políticas que proporcionem maior estabilidade ao ambiente de negócios.
“Independentemente de quem esteja no governo, precisamos discutir a sustentabilidade dessas medidas e suas consequências futuras. Uma decisão que ajuda a conter os preços hoje não pode desconsiderar o impacto de sua retirada amanhã, o setor precisa de transparência, previsibilidade e condições para se preparar. Essa é uma preocupação econômica, que vai muito além de qualquer discussão político-partidária”, avaliou.
Para o executivo, o transporte rodoviário de cargas também precisa continuar fazendo a própria parte. “Temos a responsabilidade de tornar nossas operações cada vez mais eficientes. Mas eficiência não elimina a necessidade de um ambiente econômico minimamente previsível. O transporte rodoviário participa diretamente do custo dos produtos, da competitividade das empresas e do abastecimento do país”, apontou.
PREÇO DO DIESEL
Segundo o IPC.MLog, índice de preços de combustíveis da MundoLogística, o litro do diesel foi cotado a R$ 7,14 em 15 de outubro, com alta acumulada de 2,1% nos 30 dias anteriores. No mesmo período, o barril de petróleo Brent registrou alta de 5,9%, sendo cotado a US$ 109,69.
Fonte: MundoLogística