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Do radar da multa à câmera de segurança: o foco vira a proteção

Precisamos parar de comunicar fiscalização como armadilha e começar a comunicar proteção. Parar de falar sobre multa e começar a falar sobre vidas preservadas

Não são “radares”. São câmeras de segurança. Por décadas, o Brasil se acostumou a chamar de “radar” os equipamentos eletrônicos utilizados para fiscalização de velocidade. O termo se popularizou, entrou no vocabulário e passou a representar, para boa parte da população, um símbolo de punição. Em muitos casos, virou quase um personagem do trânsito brasileiro: o “radar da multa”, o equipamento que estaria ali apenas para penalizar condutores. Mas, talvez, tenha chegado a hora de revisarmos essa nomenclatura. Porque palavras importam.

Quando insistimos em chamar esses equipamentos de “radares”, reforçamos uma percepção limitada e distorcida sobre sua verdadeira função. O foco deixa de ser a preservação da vida e passa a ser apenas a punição. A tecnologia deixa de ser compreendida como instrumento de segurança e passa a ser vista como mecanismo arrecadatório. Criou-se, ao longo do tempo, uma narrativa simplista que reduz um instrumento de proteção coletiva a uma mera ferramenta de penalização individual. E isso não é apenas um problema de comunicação. É um problema de cultura.

Nos últimos anos, o Brasil começou ainda que lentamente a amadurecer a forma como se comunica sobre segurança viária. Um exemplo foi a substituição gradual do termo “acidente de trânsito” por “sinistro de trânsito”, movimento defendido por especialistas, organismos internacionais e entidades comprometidas com a mobilidade segura.

Não se trata de preciosismo semântico. A palavra “acidente” carrega uma ideia de fatalidade, algo impossível de evitar. Já o termo “sinistro” reconhece que a maioria das mortes e lesões no trânsito possui causas preveníveis: velocidade, álcool, distração, infraestrutura inadequada, falhas sistêmicas e comportamento de risco.

Com os chamados “radares”, precisamos fazer movimento semelhante. Até porque, tecnicamente, muitos desses equipamentos já nem exercem apenas a função popular de radar. A tecnologia evoluiu. Hoje, esses sistemas monitoram uma série de comportamentos de risco, auxiliam na gestão da mobilidade urbana, protegem travessias de pedestres, analisam fluxos, registram avanço semafórico e, cada vez mais, ajudam a construir ambientes viários mais seguros. Ou seja: não estamos falando apenas de medir velocidade. Estamos falando de ferramentas de proteção da vida.

A própria experiência internacional mostra isso. A Suécia, referência mundial em segurança viária e berço da Visão Zero, utiliza uma nomenclatura muito mais alinhada com o propósito do sistema: “câmeras de segurança rodoviária”. A mensagem transmitida à sociedade é clara. O equipamento existe para proteger.

E isso faz diferença. A forma como uma sociedade nomeia suas ferramentas influencia a maneira como ela se relaciona com elas.

Quando chamamos algo de “câmera de segurança”, associamos à proteção, à prevenção. É exatamente isso que acontece em aeroportos, estabelecimentos comerciais e até mesmo dentro de residências. Ninguém questiona a existência de câmeras de segurança nesses ambientes porque compreende que sua finalidade é proteger vidas e patrimônios. No trânsito deveria ser igual. Especialmente porque existe evidência científica demonstrando que a fiscalização eletrônica reduz mortes e lesões graves. Estudos nacionais e internacionais mostram que locais monitorados apresentam redução significativa da velocidade média e, consequentemente, da severidade dos sinistros.

O corpo humano tem limites biomecânicos. A depender da velocidade envolvida, simplesmente não existe capacidade física de sobrevivência. É por isso que o excesso de velocidade é reconhecido mundialmente como o principal fator de agravamento dos sinistros de trânsito.

Mas, talvez, o grande desafio brasileiro seja justamente romper a lógica da “indústria da multa” e substituí-la por uma cultura de segurança baseada em dados, evidências e proteção da vida.

Precisamos parar de comunicar fiscalização como armadilha e começar a comunicar proteção. Parar de falar sobre multa e começar a falar sobre vidas preservadas. Precisamos compreender que o verdadeiro objetivo dessas tecnologias não é arrecadar. É evitar que famílias sejam destruídas por causas que poderiam ter sido evitadas.

Por isso, o Observatório Nacional de Segurança Viária defende que avancemos para uma nova terminologia: “câmeras de segurança no trânsito”. Porque é isso que elas são. E porque alinhar a linguagem ao propósito talvez seja um dos passos mais importantes para enxergarmos que segurança viária não se faz contra as pessoas. Se faz para as pessoas.

Fonte: Correio Braziliense

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