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A predominância do modal rodoviário na matriz de transportes

O Brasil é um país que movimenta grande parte de seus bens pelo modal rodoviário. Conforme o boletim da CNT (Confederação Nacional do Transporte), de janeiro de 2024, 64,8% do total de cargas transportadas no país, ocorre pelo modal rodoviário. Embora esta não seja uma distribuição adequada às necessidades de competitividade do país, mudar no atual momento exigirá investimentos astronômicos e cujo valor é impraticável na atual conjuntura orçamentária do país. Analisar a motivação da atual distribuição da matriz modal, pode melhorar a compreensão de eventuais desvios de decisões do poder público no passado e por decorrência melhor orientar as políticas de investimento futuro. De qualquer modo, a atual distribuição da matriz modal mostra que a predominância do modal rodoviário decorre por diversos fatores, além daqueles inerentes às políticas públicas de investimento em rodovias.

O modal rodoviário possui características intrínsecas de atributos que o tornam mais flexível em termos de atendimento dos objetivos da logística (minimizar custos e melhorar o nível de serviço aos clientes). Essas características se concentram em: acessibilidade (onde tem civilização com demanda por bens de forma significativa e de não subsistência, existirá estradas que a acessem); disponibilidade de veículos (são cerca de 750.000 veículos com as mais diversas capacidades, dispersos em uma extensa base geográfica de atuação); velocidade de entrega (possui uma velocidade de entrega que só é superada pelo modal aéreo e cobre cerca de 600 quilômetros por jornada de trabalho de apenas um tripulante, podendo chegar ao dobro, no caso de uso de troca de motoristas); tarifa aceitável no transporte de cargas completas e de cargas fracionadas;  versatilidade (podem transportar uma série de produtos e quase sem limitações ou restrições técnicas). Como contraponto às características positivas, existem as antagônicas, quais sejam: dispêndio energético (um caminhão gasta muito mais para transportar uma tonelada em um quilômetro percorrido do que os modais ferroviário e aquaviário) e isto torna o modal suscetível à rejeição em se tratando de mercados sensíveis à sustentabilidade ambiental, e; propensão a risco (a excessiva exposição em ambientes com intensa interação de outros veículos), suscetível a geração de danos patrimoniais, ambientais e sociais e esses riscos afetam a tarifa por conta dos prêmios de seguro pagos e também pelas medidas extraordinárias que as empresas de transporte rodoviário de cargas devem adotar para mitigar esses riscos.

Além disso, o país possui um mercado pouco propenso a utilização de outros modais, por conta do tipo de estrutura de mercado. O modal ferroviário atua como monopolista da malha bem como do serviço intrínseco a esta malha, já o modal aquaviário de cabotagem (navegação costeira), atua sob a forma de duopólio (duas empresas detém a maior parte da movimentação na costa do país); e o modal aéreo, embora seja muito pequeno em termos de participação na matriz modal, possui três empresas que atuam diretamente com o uso de aeronaves principalmente de passageiros. Por fim o modal rodoviário conta com uma oferta de mais de 30.000 empresas com atuação significativa em termos de movimentação de cargas. Diante desse cenário é possível concluir que o rodoviário é único modal com atuação em mercado de competição plena, também chamado de mercado de concorrência perfeita. Neste tipo de mercado os ofertadores praticam os menores preços possíveis e isto torna a tarifa aceitável e às vezes atrativa, além de atenderem as expectativas de níveis de serviços desejados pelos clientes tomadores do serviço.

Os atributos mencionados acima formam o cenário ideal para os gestores de logística de transportes das diversas empresas do país decidirem pela opção rodoviarista, uma vez que facilita a tomada de decisão não só em relação ao leque de escolhas disponíveis no mercado, mas também por conta da disposição das empresas em atender solicitações de níveis de serviços específicas de cada cliente, tais como seguros, disponibilidade de informações sobre as entregas, atendimento às eventuais restrições de clientes, dentre outras requisições.

O ambiente de negócios de transporte de cargas se torna propício ao transporte rodoviário, o que torna este o modal de domínio na matriz de transportes.

 

Por:

Mauro Roberto Schlüter

Professor de Logística

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Campus Campinas

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