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Escassez de motoristas se agrava e desafia futuro do transporte rodoviário de cargas

Assessor jurídico do SETCESP avaliou que envelhecimento da categoria, falta de renovação da mão de obra e gargalos operacionais já representam um desafio estrutural para o setor

A escassez de motoristas profissionais deixou de ser uma preocupação pontual e passou a representar um desafio estrutural para o transporte rodoviário de cargas. Essa é a avaliação do assessor jurídico do SETCESP, Narciso Figueirôa Junior, em artigo que reúne dados da International Road Transport Union (IRU), da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT) para analisar o cenário da profissão no Brasil e no exterior.

Segundo o relatório global da IRU, divulgado em 30 de junho de 2026, existem cerca de 2,9 milhões de vagas de motoristas de caminhão não preenchidas em 18 mercados. O levantamento também aponta que aproximadamente 20% da força de trabalho de motoristas na Europa e 24% na Austrália devem se aposentar nos próximos cinco anos, enquanto a participação feminina na profissão permanece reduzida.

Na avaliação de Figueirôa, o cenário internacional demonstra que a escassez de profissionais não está restrita ao Brasil. “A escassez de motoristas deixou de ser um fenômeno conjuntural e passou a constituir um problema estrutural do transporte rodoviário de cargas em praticamente todas as regiões do mundo” , afirmou.

O diagnóstico também aparece no cenário brasileiro. De acordo com estudos do Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC), citados pelo assessor jurídico, o país perdeu 1,17 milhão de motoristas habilitados nas categorias C e E na última década. Além disso, mais de 71% dos profissionais têm entre 41 e 70 anos, menos de 5% possuem até 30 anos e 88% das empresas de transporte relatam dificuldade para contratar motoristas.

Para Figueirôa, as pesquisas da CNT e da CNTTT reforçam esse diagnóstico ao identificar desafios semelhantes, apesar de terem sido realizadas por entidades distintas.

“Mais do que identificar problemas, elas oferecem um diagnóstico consistente da realidade vivenciada pelos motoristas profissionais e fornecem importantes elementos para que empresas, trabalhadores e Poder Público possam construir soluções capazes de fortalecer o transporte rodoviário de cargas”, ressaltou.

A pesquisa da CNT, realizada entre 25 de setembro e 3 de outubro de 2025, ouviu 800 motoristas profissionais em 58 postos de combustíveis distribuídos por seis estados, abrangendo as cinco regiões do país. O levantamento mostra que os entrevistados percorrem, em média, 9.859 quilômetros por mês e que 59,1% atuam em rotas de longa distância, superiores a 500 quilômetros por dia. A pesquisa também aponta média de 5,6 dias de folga por mês e indica que 54,5% dos motoristas consideram suficiente o período de descanso interjornada previsto na Lei 13.103/15. Entre aqueles que responderam qual seria o intervalo ideal, 69,3% apontaram um período entre seis e oito horas, com média de sete horas e 30 minutos.

Já a pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT), realizada entre 9 e 25 de janeiro de 2026 com 1.015 motoristas profissionais das cinco regiões do país, reforça o envelhecimento da categoria, com idade média de 45 anos, além da predominância masculina (99,7%). O estudo também aponta que 43,6% dos entrevistados têm escolaridade até o ensino fundamental, 75% são casados e a remuneração média é de R$ 3.206 de salário-base e de R$ 6.006 de salário líquido. Entre os principais atrativos da profissão estão a renda competitiva (57%), o contato com diferentes regiões do país, culturas e paisagens (35%) e a liberdade para escolher onde comer e dormir durante as viagens (33%).

Ainda de acordo com a CNTTT, os principais fatores que afastam profissionais da atividade são o preconceito contra a categoria (70%), as baixas remunerações (58%), as condições adversas de trabalho (51%), a insuficiência de políticas públicas efetivas (41%) e a falta de perspectivas de crescimento (38%). O levantamento mostra ainda que 93% dos motoristas realizam o descanso obrigatório diário em postos de combustíveis, evidenciando a importância dessas estruturas para o cumprimento da legislação. Além disso, 58% preferem o fracionamento das 11 horas de descanso interjornada, enquanto 81% afirmam preferir cumprir o descanso semanal remunerado em casa, ao final da viagem. Outros 84% relatam dificuldade média ou alta para encontrar locais adequados e seguros para cumprir o descanso diário.

De acordo com o assessor jurídico, muitos desses obstáculos não estão relacionados apenas às empresas transportadoras. Filas para carga e descarga, restrições operacionais nos centros urbanos, deficiência da infraestrutura rodoviária e escassez de pontos de parada contribuem para reduzir a produtividade e aumentar o desgaste dos profissionais.

Para ele, discutir o futuro da logística passa necessariamente pela valorização do motorista profissional. “Sem profissionais qualificados, experientes e motivados, nenhuma cadeia logística consegue atingir elevados níveis de produtividade. Por essa razão, discutir o futuro do transporte rodoviário de cargas exige, necessariamente, discutir o futuro da profissão de motorista”, avaliou.

Na avaliação de Figueirôa, a solução depende da atuação conjunta de empresas, embarcadores, destinatários, concessionárias, entidades representativas e poder público para reduzir os tempos improdutivos das operações e melhorar as condições de trabalho dos profissionais. Entre as medidas defendidas por ele estão investimentos em infraestrutura, ampliação da rede de pontos de parada e descanso, redução do tempo de espera para carga e descarga, programas de formação e qualificação profissional, incentivo ao ingresso de jovens e mulheres na atividade e aperfeiçoamento contínuo da legislação com base em evidências.

Para o assessor jurídico, as pesquisas nacionais e internacionais apontam para um diagnóstico comum sobre os desafios enfrentados pela profissão, o que pode servir de base para a construção de soluções compartilhadas. “Valorizar o motorista profissional significa investir na eficiência logística, na competitividade das empresas brasileiras e no fortalecimento da economia nacional”, pontuou.

Fonte: Mundo Logística

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